A estrutura teatral da mágica e a incredulidade do impossível
Nesta primeira abordagem à estrutura da mágica, vou tentar explicar certos conceitos que nos situem a todos no mesmo ponto de partida, um marco inicial sobre o qual construir uma linguagem comum dentro do âmbito teórico da mágica, de modo que todos falemos o mesmo idioma quando nos referirmos a esta arte cênica.
Em grego, a palavra 'teatro' significa "lugar para contemplar". É o ramo das artes cênicas relacionado à atuação, que representa histórias encenadas diante da plateia usando uma combinação de discurso, gestos, cenografia, música, som e espetáculo. É também o gênero literário que compreende as obras concebidas para um palco perante um público. Serão as duas musas gregas, Talia e Melpômene, filhas de Zeus, que representarão, com suas máscaras alegre e trágica, o mundo da dramaturgia. Há 2500 anos, construíam-se edifícios na Grécia clássica para o desfrute do povo, e todos conhecem os mitos, tragédias e representações gregas. Poderíamos dizer que a atuação é tão antiga quanto a civilização e, desde então até a atualidade, filósofos e pensadores têm debatido e renovado a conceituação desta arte maior.
Avancemos alguns séculos. Em 1817, o poeta e filósofo britânico Samuel Taylor Coleridge trouxe um grande avanço para a conceituação das artes cênicas ao cunhar o termo “suspensão da descrença”. É uma expressão que se refere à vontade do espectador/leitor/jogador de aceitar como verdadeiras as premissas sobre as quais se baseia uma ficção, ainda que sejam fantásticas ou impossíveis. Suspension of disbelief ou “suspensão da descrença” é um termo tão importante que continua sendo utilizado em outras artes cênicas mais modernas, como a televisão e o cinema. Refere-se à capacidade do público de se entregar ao mundo fictício que lhe é apresentado e brincar nele sem interrupções, sem sair do cenário que foi criado para ele por pensar que algo ali resulta inacreditável.
Graças à suspensão da descrença, nós, mágicos, podemos criar essa realidade alternativa na qual, durante o tempo em que o mágico entra em cena e apenas por sua pura vontade, o público pode acreditar que um baralho pode mudar de cor, um anel pode viajar de forma invisível para o interior de uma caixa fechada com cadeados ou um coelho pode sair de uma cartola. Mas não nos enganemos, isso não depende apenas da capacidade ou da ignorância do público. Depende de um mágico habilidoso, criativo e de seu árduo trabalho de planejamento, prática e criatividade.
Sem nos desviarmos do nosso objetivo, surge um dilema para encarar a abordagem da mágica, chamemo-la de uma abordagem “metamágica”, para além de truques, ilusionismo, aparelhos ou sugestão de emoções que transcendam o espanto. Considero fundamental conhecer que terreno pisamos para delimitar nossas fronteiras na hora de construir uma experiência mágica. Já haverá tempo para falar sobre para quem queremos fazer mágica.
A mágica é uma disciplina teatral. É um espetáculo oferecido para entreter um público. Bernard Beckerman, diretor do Programa de Artes Cênicas da Universidade de Columbia, propôs a classificação de três tipos básicos de espetáculos:
Espetáculos de Glorificação: desfiles, festivais, etc.
Espetáculos de Habilidade: circo, malabarismo, acrobacias, etc.
Espetáculos de Ilusão: teatro e mágica.
Atenção à última classificação. Teatro e mágica estão tão intrinsecamente relacionados que se situam juntos no mesmo tipo de espetáculo. O imortal Robert-Houdin definia o mágico como “um ator interpretando o papel de um mágico”, e um aspecto fundamental do personagem teatral do mágico é que ele possui poderes mágicos. O público pode acreditar ou não neles, mas a evidência visual, às vezes tátil e até sensorial, demonstra que o impossível acontece sob o comando do mágico.
Muitos mágicos acreditam que seu trabalho consiste em apresentar truques de efeito de forma divertida para enganar o público. Acredito que essa atitude faz mais mal à mágica do que qualquer outra coisa. Se alguém é enganado por um efeito mágico, sente que foi passado para trás e, pior ainda, que foi tratado como tolo. Se o surpreendem com um truque de mágica, pode sentir que foi ludibriado porque sabe que em algum momento houve um truque e ele não viu. Encarar a mágica como uma competição em que o mágico é o mais esperto da sala é sacrificar por completo a experiência mágica, subverter o atrativo emocional do milagroso pelo atrativo estritamente intelectual do quebra-cabeça. É, como veremos de um ponto de vista neurológico, excitar o hemisfério errado do cérebro.
Nem todo público está disposto a desfrutar da experiência; nem todo mundo tem um pôster na parede como o de Arquivo X com a frase “Quero acreditar”. Assim como há pessoas que não gostam de teatro (ou filmes de super-heróis, ou comédias românticas) e preferem o cinema iraniano com áudio original ou o gênero da nouvelle vague, em que os protagonistas vivem situações cotidianas enquanto se sentem perdidos em um mundo homogêneo que não compreendem, também há espectadores que não gostam de mágica, já que a conceituam como um puzzle, um quebra-cabeça, um engano, um desafio, situações todas em que eles perdem. Não se esforce por eles (como dizia Juan Belmonte "tem que ter gente para tudo"), não tente evangelizá-los na mágica e no ilusionismo; preocupe-se com os espectadores que realmente têm interesse pela mágica.
A melhor situação para o seu público, aquele que o verá com expectativas, mas que você ainda não conquistou o direito de chamar de seu, consiste em encontrar algum tipo de equilíbrio entre o atrativo mítico (hemisfério direito) da mágica e o atrativo do quebra-cabeça (hemisfério esquerdo), tal como o arco e a flecha, e, a partir dessa tensão, criar uma experiência mágica única. Se, como o filósofo grego Heráclito deixou escrito meio milênio antes do nascimento de Cristo, “a beleza e a verdade se encontram na tensão entre opostos”, então talvez seja aqui que se cria a experiência mágica: na tensão entre coração e cabeça, entre emoção e intelecto.
O trabalho do mágico consiste em fazer com que o público desfrute do impossível porque é impossível, não porque acreditem que seja verdade. A mágica não é um engano, a mágica é o controle da percepção para fins de entretenimento. Grave isso em pedra, tatue, escreva na lousa, faça o que for para não esquecer esta premissa e não a questione; trate-a como um dogma de fé. Se a alterar, fará outra coisa, mas não será mágica.
É fundamental que o público não tenha consciência de que está sendo enganado, pois, parafraseando o pintor malaguenho Picasso, se toda arte é uma mentira que diz a verdade, a arte da mágica deve conseguir que o público alcance essa suspensão da descrença, com as regras impostas pelo mágico, enquanto durar o espetáculo. O momento mágico.
O mágico norte-americano Simon Aronson destacou: “há uma grande diferença entre não saber como algo é feito e saber que não pode ser feito”. Apenas a segunda destas situações satisfaz o apetite por maravilhas do público, seu profundo desejo de acreditar na mágica. É a esse ponto que se deve chegar para oferecer uma experiência mágica única: “não sei o que ele fez, não sei como ele fez, mas é impossível”.
Agora, pois....
É a única maneira? De forma alguma. O fato de a mágica ser uma ramificação do teatro não implica que ela não possua uma linguagem própria, regras que, por sua própria natureza, podem e, afirmo categoricamente, devem ser rompidas. De fato, as maiores inovações nos últimos 100 anos surgiram da ruptura dessas regras impostas tacitamente no século XIX, herdadas de Robert-Houdin ou Hofzinser, autores ambos que duvido que pretendessem impor uma doutrina.
Durante esse tempo, incorporaram-se outras disciplinas como o espiritismo (tão criticado por Houdini, na forma de mentalismo, seance, etc.); o escapismo, pelo próprio Houdini; o vigarismo, a mágica oriental (supostamente oriental, Okito e Fu Manchu eram britânico-holandeses) ou a mágica de perto (surgida pela proximidade das câmeras e a visualização do efeito de diferentes ângulos). Por outro lado, os espetáculos mágicos tiveram que se adaptar à velocidade que o público exigia, que, com o auge da televisão, já não aguentava espetáculos teatrais de horas, e os aparelhos mágicos tiveram que se tornar menores e mais portáteis para economizar com gastos de transporte.
Com relação à estrutura do espetáculo mágico, em pleno alvoroço rupturista artístico do primeiro terço do século XX, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht decidiu que a suspensão da descrença não servia para nada se não mudasse a sociedade. Cunhou o termo verfremdungseffekt, traduzível como “efeito de distanciamento”, para definir o que pretendia com suas obras. Brecht aspirava que a audiência não deixasse de ter consciência de que assistia a uma representação e, portanto, de vez em quando seus atores se dirigiam diretamente ao público para lembrá-lo de que eram isso: atores. O objetivo era que o público não se deixasse levar por seus sentimentos, que não se emocionasse com a história, mas com o sentido da mesma (o pacifismo, por exemplo) para motivar sua ação.
O uso do efeito de distanciamento de Brecht na mágica é um recurso às vezes utilizado para situar o público no lugar que o mágico deseja e até potencializar o efeito posterior. Quem não se lembra do ínclito Anthony Blake recitando seu mantra: “tudo o que viram é produto de sua imaginação”, como demonstração de que está acima da credulidade do público, dando-nos um nó na cabeça mais uma vez. Deixando de lado as classificações de Gabi Pareras (outro grande mágico que duvido que quisesse doutrinar, algo que seus seguidores parecem não notar) sobre a atitude do mágico em relação aos truques (a ser tratado em outros artigos), o personagem do mágico pode e deve ser rupturista em sua atuação.
Lembremos que na mágica não existe a quarta parede, que atuamos para um público que vive, sente e se emociona com nossos atos a cada instante. Qualquer recurso estilístico é aceitável dentro de um contexto que melhore a atuação, que a faça diferente e única, que consiga que a memória, a experiência mágica, a suspensão da descrença ou a própria afirmação da impossibilidade do que está acontecendo, surja de motivações diferentes da nossa própria pessoa, do alimento da nossa própria vaidade. O direito de vestir a capa de mágico não surge do conhecimento, da prática ou da especialização, mas da capacidade de emocionar e parecer crível sem que o espectador tenha qualquer dúvida de que o que presenciou é impossível, é espantoso e é divertido. De que é puro teatro.
Bibliografia
Biographia Literaria (1817), Samuel Taylor Coleridge
Theatrical Presentation (1990), Bernard Beckerman
Memoirs of Robert-Houdin, ambassador, author and conjurer (2023), Robert-Houdin, R. Shelton Mackenzie
Shuffle-Bored (1980), Simon Aronson
El pequeño órganon para el teatro (1948), Bertolt Brecht
Mystery School (2003), Charles Reynolds
Muito interessante. Obrigado por compartilhar seu trabalho e estudo. Acho que é um material muito útil para se ter em mente.
Um artigo brilhante, obrigado por compartilhar
Muito interessante @DeZeta!!! Gostei muito! E dá para falar sobre muitos temas. A mistura de suspensão de descrença com a quebra da quarta parede (tão essencial no close-up, mas não em outras vertentes com mais facilidades ficcionais), por exemplo.
Afinal, a mágica é uma arte essencialmente efêmera e orgânica, quase próxima da improvisação teatral, uma arte do tempo e do espaço, mas que precisa, de qualquer jeito, do espectador para existir.
Números como o de Lauren Piron no FISM são quase teatrais demais, bonitos, mas no final a mágica perde força, a meu ver, diante de números mais próximos, compartilhados e interativos.
Deixo aqui uma série de vídeos sobre os processos mentais dos espectadores no cinema:
[FOCUS] Espectador
Caramba!! Este tema é muito profundo.
Eu não fazia ideia de que a mágica pudesse ser analisada sob pontos de vista estéticos, psicológicos e até de processo mental.
Deixe-me ler umas 5 vezes mais para poder opinar algo que valha a pena.
Muito obrigado pelo esforço em nos trazer cultura mágica. Agradeço imensamente.
Um abraço
Me parece que foi bem na mosca.
A comparação dos hemisférios é muito interessante.
É importante que o papel do mágico esteja a serviço do público.
Gosto porque você gera mais perguntas do que respostas.
Você me fez lembrar de uma das minhas últimas descobertas, que eu poderia chamar de "não-magia", mas que acho muito interessante.
O que vocês acham disso?
Alguns exemplos (são reels do Instagram):
https://www.instagram.com/reel/CrSkSWkRT2a/
https://www.instagram.com/reel/CrafisdtTcA/
https://www.instagram.com/reel/Crkm8XjucG9/
https://kallenio.com/
Isso precisa ser lido com muita atenção, entendendo bem e aprendendo direitinho 😉
Muito obrigado!!! 👏🏼👏🏼👏🏼
Penso o mesmo, mas um pouco longo, né?😅
@Boky:
Tudo bem até você ter que falar mal de outra pessoa. Isso aqui não.
Peço que corrija a mensagem, dá para editar.
Por mais "velho ranzinza" que você seja (como diz seu amigo @Zeta ), aqui estamos para aprender, tirar dúvidas, gerar debate, saciar nossa curiosidade infinita.
Acho que você pode somar muito aqui e para todos.
Um abraço.
Muito obrigado pelo tempo e pela sabedoria dedicados. Concordo com os outros colegas que isso aqui precisa ser lido com calma e assimilado antes de podermos sequer fazer um comentário.
Adorei logo na primeira leitura e concordo com muitas das coisas que você escreveu. Não quer dizer que eu discorde das outras, mas exige uma segunda ou até terceira leitura, com calma e tranquilidade... algo que não anda me sobrando.
Um abraço e reforço o meu muito obrigado por esse artigo genial.
@dzantari, não esquenta a cabeça que o @Boky é assim mesmo.
Ele decorou de cabo a rabo as Penguin Live Lecture, as International Magicians Society e as Essential Magic Conference, entre muitas outras coisas.
É um mágico que já viu de tudo, por isso (e no caso dele) não tem muita paciência 😅.
Como todo mundo, ele sempre terá coisas novas para aprender, e continua nessa.
Mas na hora de explicar as coisas, principalmente as básicas e essenciais, parece um velho ranzinza 😊, já te digo que ele é assim comigo e com todo mundo, não é nada pessoal.
Só queria comentar isso (agora vocês já podem se matar 🤣 🤣 🤣 num debate saudável 😉)
É a forma, o conteúdo, os pontapés no dicionário, a ortografia... De verdade, @Boky, se precisar de ajuda, é só pedir.
Um abraço e muito ânimo.