Magia infantil e clown: humor e participação do público
Esta conferência estuda como aplicar recursos do clown à magia infantil e como construir uma relação com as crianças e os adultos que as acompanham. O Kayto combina exercícios de interpretação, exemplos cênicos e uma conversa sobre o trato aos ajudantes. O centro da instrução é desenvolver situações divertidas e fazer com que a participação faça parte do espetáculo.
A risa, o corpo e a preparação para entrar
O Kayto utiliza o riso como apresentação da sua personagem: desde os primeiros minutos comunica que relação quer estabelecer com o público. Explica como tem trabalhado o seu próprio riso e propõe um exercício que parte de repetir sílabas a diferentes velocidades. Mostra risos explosivos, contidos, tontos e cúmplices, e comenta os momentos em que os utiliza.
O trabalho inclui observar o próprio corpo e acompanhar a voz com movimentos que encaixem com ele. A proposta é reconhecer as possibilidades de cada intérprete e encontrar uma expressão própria. Relacionam-se a convicção ao entrar, a atitude perante o público e a disposição corporal com a forma de comunicar humor.
Também mostra exercícios de respiração e preparação vocal que utiliza antes de atuar. Praticam-se a perceção do movimento abdominal e uma sequência tranquila de inspiração, movimento de braços e expiração. Apresenta-os como parte da sua preparação cênica para projetar a voz e predispor-se para atuar.
O clown, o augusto e a construção de uma paródia
Estuda-se o contraste entre a personagem séria que estabelece uma diretriz e a personagem que a interpreta de outra forma. O Kayto descreve os papéis do clown e do augusto e como o conflito entre ambos pode sustentar uma cena.
A paródia da porta serve para analisar um exemplo completo: uma instrução simples produz equívocos, deslocamentos e repetições antes do desfecho. Distinguem-se as paródias orais e as de ação, e propõe-se como transformar o seu desenvolvimento numa situação mágica. A atenção está tanto no caminho como no efeito final.
A atuação de A carta não pescada ilustra essa forma de pensar com cartas e corda. Analisa-se a expectativa que o título cria, o conflito da personagem e a decisão de mudar o desfecho habitual. O Kayto assinala que costuma apresentá-la para adultos e que, com crianças, prefere frequentemente efeitos mais diretos que não dependam de se lembrar de uma carta. O exemplo desenvolve a construção cómica; não constitui uma explicação técnica completa de cartomagia.
Repetição, falha aparente e atenção
A repetição é trabalhada com palavras, mudanças de tom e ações corporais. Explica-se como variar a maneira de repetir uma pergunta ou um gesto para que a situação continue a avançar. Também se estuda o prazer de antecipar algo conhecido e vê-lo acontecer, tal como sucede com os momentos recorrentes de um espetáculo.
O Kayto compara a falha aparente do mágico com a do palhaço. Uma demonstração com uma bolsa de mudança e um lenço mostra como uma dificuldade cómica pode concentrar a atenção e acompanhar uma ação mágica. A análise centra-se na interpretação, no ritmo e no uso do conflito. Comentam-se ainda as possibilidades de um squeaker, os objetos de tamanho exagerado, a roupa e a personagem distraída.
Escolher, orientar e reconhecer os ajudantes
Uma parte ampla da conferência aborda a observação das crianças antes de decidir o que lhes pedir. Presta-se atenção à sua disposição para participar, à sua maneira de se aproximar e à energia com que chegam, para adaptar a interação ao ajudante concreto.
Explica-se como repartir os papéis do clown e do augusto entre o mágico e o participante, e como oferecer instruções que transmitam tranquilidade. Se for utilizado equipamento de som, o Kayto comenta o uso do silenciador (mute) para falar brevemente com o ajudante antes de uma ação. Também desenvolve o reforço positivo e a progressão desde indicações simples até uma participação mais elaborada.
O conceito de criar heróis consiste em reconhecer a contribuição da criança e despedi-la com uma experiência positiva. A conversa inclui timidez, respostas espontâneas e situações em que convém adaptar o previsto. Insiste-se em não dar como garantidas as capacidades físicas do participante nem forçar um gesto por comodidade do número.
Também se comentam situações de participação difícil e a importância de manter um trato amável. Os exemplos são recursos cênicos do Kayto: o trabalho consiste em escutar o que acontece e ajustar o desenvolvimento, em vez de depender de que todos reajam da mesma forma.
Idade, energia e relação com toda a família
Relacionam-se o tamanho do espaço, a distância até ao público e a idade com a intensidade da entrada, a voz e o movimento. Para os mais pequenos destaca-se a clareza do número e a repetição; com os mais velhos propõe-se reconhecer a sua autonomia, dar-lhes uma função e falar-lhes com naturalidade.
A conferência também estuda a presença dos adultos e como torná-los participantes. Uma situação de cumplicidade coletiva serve para mostrar que a relação entre os espetadores pode transformar-se em material de comédia.
O encerramento aborda o que acontece depois do último número: manter um trato coerente durante a despedida, atender aos pedidos consoante a situação e escutar que momentos o público recorda. Essa troca é utilizada como informação para continuar a ajustar o espetáculo.
Material e conhecimentos prévios
Os exercícios de riso, observação corporal e preparação vocal podem ser praticados sem material de magia. Os exemplos cênicos empregam cartas e corda, uma bolsa de mudança e um lenço; também se comentam balões, um squeaker e objetos de tamanhos contrastados. O microfone com mute é uma opção para os casos em que se trabalha com amplificação de som.
Para aplicar as ideias, convém dispor de algum número conhecido e ensaiá-lo do ponto de vista da apresentação e da participação. Não se exige uma técnica manipulativa avançada. O lenço no sapato e a bolsa e o ovo aparecem como referências de repertório; os seus métodos completos não são ensinados nesta conferência. Os livros de paródias citados são recomendações, não material incluído.